Introdução ao Yoga Sutra
por Maurício Wolff

Historicamente, a base de todas as diversas abordagens de Yoga é o Yoga Sutra, que representa o resumo de muitas gerações de cultura yogi. Patanjali não criou o Yoga, limitou-se a sintetizar o conhecimento Vedico. Esta obra foi composta entre os séculos II ac e IV dc.
Segundo Krishnamacharya, todos os conceitos do Yoga Sutra podem ser encontrados separadamente nos Vedas, Upanishads, Samkhya Kaarika e outros shastras. Essa obra, desenvolvida posteriormente por numerosos comentários, forma o texto base do Yoga como Darshana, isto é, um dos seis pontos de vista indiano sobre a Realidade Última e os modos de aproximar-se dessa Realidade .
São ao todo 195 aforismos que integram quatro livros:
- samadhi padah : sobre a perfeita compreensão
- sadhana padah : sobre a prática
- vibhuti padah : sobre os poderes
- kaivalya padah : sobre a libertação
Os seis Darshana são sistemas metafísicos ou filosóficos, com a mesma base axiomática: ciclo de renascimentos eterno (associado com uma cosmologia de ciclos eternos) e a possibilidade de transcender a existência fenomenal, sair do ciclo. Os outros Darshanas: vaisheshika (atomismo), nyaya (lógica), samkhya (enumeração de tatvas, purusha prakrti) yoga (técnicas de transcendência), mimansa (ritualística dos vedas) e vedanta (especulação metafísica)
O* sistema de Patañjali é também chamado de Ashtanga Yoga,* um Yoga em oito partes, ou oito membros (yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana, samadhi). A definição dos oito angas está no segundo livro e a sua exposição inicia no sutra 29. A palavra Anga quer dizer membro ou parte constituinte de um corpo. No presente contexto obviamente designa as oito subdivisões em que a técnica yogi está classificada.
A ordem de apresentação dos 8 angas (partes) vai do mais externo e denso ao mais interno, intenso refinado e sutil estado de introspecção.
Pela prática das oito partes do yoga, vão se minguando as impurezas e com isto vem a luz do saber, que conduz ao discernimento discriminativo.
yogascittavrttinirodhah || 2||
O unidirecionamento das faculdades mentais num fluxo contínuo sobre um único objeto é Yoga.
As faculdades mentais (vrttis) são de cinco tipos, e podem causar ou não sofrimento; são eles:
- Pramana: conhecimento correto, com base na percepção direta ou em escrituras;
- Viparyaya: opinião errônea, após estudo, diagnóstico errado, quando o conhecimento de alguma coisa não é baseado em sua forma verdadeira;
- Vikalpa: ilusão ou fantasia, que repousa meramente em expressão verbal ou imaginação;
- Nidra: sono profundo sem sonhos,
- Smrti: memória, retenções de impressões do passado.
Tendo definido as capacidades da mente (vrttis), Patañjali nos dá o caminho para concentrá-los no fluxo mencionado no sutra 1:2
abhyasavairagyabhyam tannirodhah || 12||
O estado de Yoga (nirodha) é atingido através da prática perseverante e do desapego.
tatra sthitau yatno’bhyasah || 13||
Prática é o esforço adequado requerido para se mover em direção a e manter o estado de Yoga.
Patañjali quer dizer prática contínua, não apenas por um ou dois dias. Você tem que perseverar num sadhana, num tipo de prática ensinado por um professor competente durante um longo período.
drshtanusravikavishayavitrshnasya vasikarasanjña vairagyam || 15||
Quando abhyasa está presente, se desenvolve o desapego excessivo dos sentidos por objetos externos.
tatparam purushakhyatergunavaitrshnyam || 16||
Quando o conhecimento do seu verdadeiro Eu ocorre, o praticante não é mais perturbado pelas distrações internas ou externas a ele. Este é o supremo desapego.
Dadas as definições de abhyaasa e vairagya, Patañjali expõe no livro 2 (sadhana Pada ? sobre a prática) quais são as qualidades necessárias à uma prática para que ela seja considerada um sadhana e possibilite o desenvolvimento de abhyasa:
tapahsvadhyayesvarapranidhanani kriyayogah || 1||
A prática do Yoga precisa ser intensa e gerar calor – e assim reduzir impurezas físicas e mentais – (tapas), desenvolver o auto-estudo (svadhyaya) e a consciência de que não temos o controle dos resultados das nossas ações, somente da ação em si (ishvarapranidhana).
samadhibhavanarthah klesatanukaranarthasca || 2||
Através da prática com as três qualidades fundamentais (sadhana), os obstáculos (klesha) à percepção clara são minimizados ou removidos.
Os obstáculos mencionados são os kleshas, que impedem a nossa compreensão correta da realidade.
avidyasmitaragadveshabhinivesah klesah || 3||
São os klesha:
- Avidya: compreensão incorreta; filtro através do qual pensamos ter a compreensão correta mas nos enganamos. Avidya é de difícil percepção imediata. É mais fácil perceber avidya através de suas manifestações, seus “galhos”;
- Asmita: ego, sentimento de que realmente somos os papéis que inventamos;
- Raga: desejo de ter coisas não pela necessidade, mas porque ontem elas foram aprazíveis; querer o que não se tem. Não se contentar com a quantidade do que se tem. Não querer abrir mão do que se tem.
- Dvesa: aversão ou repugnância a coisas que não conhecemos ou que nos trouxeram sofrimento anteriormente. O contrário de raga.
- Abhinivesha: insegurança ou medo. Do julgamento alheio, da nossa posição na vida, estilo de vida, velhice, morte.
Essas causas de dor ficam submersas na mente do saadhaka, todos nascem da ignorância de quem realmente somos. Elas vem à tona quando encontram um momento oportuno. E podem ser destruídas através da meditação quando em estado ativo, ou seja, quando estão manifestos.
Estes obstáculos podem ser reduzidos através da atentividade quando estão latentes (2:10) e da meditação num único objeto quando estão por agir, no seu estado ativo (2:11).
Outro meio de reduzir a influência dos obstáculos na nossa vida está citado suutra 2:33, que diz:
vitarkabadhane pratipaksabhavanam || 33||
Se pensamentos indesejáveis surgirem estes devem ser substituídos pelos seus opostos. Esta técnica chama-se pratipaksha bhavana.
Podemos também refletir sobre as conseqüências desses pensamentos ou sentimentos – que são originados em avidya e que devem ser substituídos pelos seus opostos antes que produzam sofrimento e tristeza a nós mesmos e em nossos relacionamentos com o mundo.
heyam duhkham anagatam || 16||
O sofrimento que ainda não aconteceu deve ser antecipado e evitado.
Em resumo, a prática do Yoga tem por propósito a redução dos efeitos que nos são dolorosos através do aumento da percepção clara. Isso nos permite vivenciar o estado de Yoga, nos libertando dos nossos condicionamentos.
A meta do Yoga segundo o Yoga Suutra, é atingir e permanecer neste estado, fazendo com que a consciência do Ser não seja distorcida pelas nossas percepções, repousando na sua verdadeira natureza (kaivalya).
Esta é a verdadeira independência, a suprema liberdade




